quarta-feira, 20 de maio de 2015

A Idade Média brasileira


 

Essa manhã uma notícia me chamou atenção e não apenas pelo tom de tragédia que porta consigo, mas, sobretudo, pelo sentimento de tristeza e ao mesmo tempo de revolta que ela pôde me causar ao lê-la.

Um médico de 55 anos morreu hoje em decorrência dos ferimentos provocado por “facadas” que lhe foram desferidas, enquanto andava de bicicleta pela Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro, alguém poderia perguntar: “porque você se incomoda com um desconhecido que morre no Rio de Janeiro? Se você está morando em Lisboa e quando retornar ao Brasil vai morar no Recife?” Bem a resposta poderia ser: “por que sou ser humano, por que sou cristão, por que me incomodam as tragédias ...” mas a verdade disso tudo é bem mais profunda e requer uma reflexão.

O que me incomoda é o fato de que chegamos a um ponto mesmo medieval da história do Brasil, onde as pessoas não podem ou devem sair de seus muros (condomínios e casas) para curtir os espaços públicos, acho mesmo incrível, para não dizer inacreditável que sejamos obrigados a viver enclausurados, presos nas “atrações” dos nossos condomínios com piscina, sauna, área de lazer, salão de festas, academia, pista de cooper, espaço gourmet, ou qualquer outro “apetrecho” que nos acomode seguros em casa.

Incrível como um simples passeio de bicicleta ao redor de um espaço público possa significar algo tão incrivelmente inacessível ao brasileiro médio.

Que nível de vida estamos tendo? O quanto temos sido obrigados a ganhar para termos uma vida agradável? Onde vamos mesmo chegar com tamanha violência e descaso com a vida humana? Quando teremos das autoridades garantias acerca da nossa segurança, do direito de ir e vir, do direito e do poder de gozar e usar os espaços públicos, sem que seja necessário: deixar todos os objetos de algum valor em casa, relógios, telefones celulares, etc.

Talvez por isso eu possa entender o quanto é importante para o Poder Público garantir que “novas muralhas” sejam construídas, como meios de aproveitar os espaços públicos, tais como os movimentos que estão agora acontecendo no Recife com a construção do chamado “Novo Recife”, em que uma área pública, lindíssima, seja arrendada e utilizada para construir torres residenciais com toda uma infraestrutura de lazer completa (muralhas) para que as pessoas não possam sair de suas casas e, para que os que não podem pagar, também não possam usufruir dos espaços públicos.

As políticas, seja de segurança pública, seja de aproveitamento dos espaços públicos, bem como qualquer outra no Brasil são sempre muito sectárias, sempre separando não apenas ricos e pobres, mas sobretudo elas reprimem aqueles que nem são um nem outro, a chamada classe média, que por não ser rica, não pode comprar o direito de viver dentro das “muralhas” e, por não ser também pobre não pode circular “fora delas”.


O que aconteceu no Rio de Janeiro é um problema meu sim, e eu sinceramente sinto muitíssimo pela família desse cidadão brasileiro, mas sinto ainda mais por tantos outros anônimos e por mim que, também, não posso “aproveitar a rua”.

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