Essa manhã uma notícia me chamou
atenção e não apenas pelo tom de tragédia que porta consigo, mas, sobretudo,
pelo sentimento de tristeza e ao mesmo tempo de revolta que ela pôde me causar
ao lê-la.
Um médico de 55 anos morreu
hoje em decorrência dos ferimentos provocado por “facadas” que lhe foram
desferidas, enquanto andava de bicicleta pela Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio
de Janeiro, alguém poderia perguntar: “porque você se incomoda com um
desconhecido que morre no Rio de Janeiro? Se você está morando em Lisboa e
quando retornar ao Brasil vai morar no Recife?” Bem a resposta poderia ser: “por
que sou ser humano, por que sou cristão, por que me incomodam as tragédias ...”
mas a verdade disso tudo é bem mais profunda e requer uma reflexão.
O que me incomoda é o fato
de que chegamos a um ponto mesmo medieval da história do Brasil, onde as
pessoas não podem ou devem sair de seus muros (condomínios e casas) para curtir
os espaços públicos, acho mesmo incrível, para não dizer inacreditável que
sejamos obrigados a viver enclausurados, presos nas “atrações” dos nossos condomínios
com piscina, sauna, área de lazer, salão de festas, academia, pista de cooper, espaço gourmet, ou qualquer
outro “apetrecho” que nos acomode seguros em casa.
Incrível como um simples
passeio de bicicleta ao redor de um espaço público possa significar algo tão
incrivelmente inacessível ao brasileiro médio.
Que nível de vida estamos tendo?
O quanto temos sido obrigados a ganhar para termos uma vida agradável? Onde
vamos mesmo chegar com tamanha violência e descaso com a vida humana? Quando teremos
das autoridades garantias acerca da nossa segurança, do direito de ir e vir, do
direito e do poder de gozar e usar os espaços públicos, sem que seja
necessário: deixar todos os objetos de algum valor em casa, relógios, telefones
celulares, etc.
Talvez por isso eu possa
entender o quanto é importante para o Poder Público garantir que “novas muralhas”
sejam construídas, como meios de aproveitar os espaços públicos, tais como os
movimentos que estão agora acontecendo no Recife com a construção do chamado “Novo
Recife”, em que uma área pública, lindíssima, seja arrendada e utilizada para
construir torres residenciais com toda uma infraestrutura de lazer completa
(muralhas) para que as pessoas não possam sair de suas casas e, para que os que
não podem pagar, também não possam usufruir dos espaços públicos.
As políticas, seja de
segurança pública, seja de aproveitamento dos espaços públicos, bem como
qualquer outra no Brasil são sempre muito sectárias, sempre separando não
apenas ricos e pobres, mas sobretudo elas reprimem aqueles que nem são um nem
outro, a chamada classe média, que por não ser rica, não pode comprar o direito
de viver dentro das “muralhas” e, por não ser também pobre não pode circular “fora
delas”.
O que aconteceu no Rio de
Janeiro é um problema meu sim, e eu sinceramente sinto muitíssimo pela família
desse cidadão brasileiro, mas sinto ainda mais por tantos outros anônimos e por
mim que, também, não posso “aproveitar a rua”.